Ah, Cão!
Tu que forçaste tua cabeça a penetrar neste grilhão de prata,
tu que escolheste sufocar neste ornamento acolhedor.
Tu que comeras da carne crua que a mão te oferecia,
e te deleitaras com o sabor de ferrugem, e o engoliste agradecido!
Tu que suportaras o enforcador e te culpaste pela incompreensão do dialeto humano que te ordenava
SENTA!
Tua pelagem escura se eriçara com os mendigados afagos da mão que te alimentava.
Tu que negaras tua condição bestial em troca do conforto que encontraste no amontoado de tábuas
que te designaram como lar, e em que mal coube tua esguia integridade.
Teus olhos ansiosos, mescla de verde e castanho, que viram no mestre o deus mais belo,
que enxergaram Nossa Senhora e Vênus onde se escondia um carente Narciso.
Tu que colocaras tua fidelidade à prova quando mordeste a mão que te acariciou com o tapa.
Não uivaste à Lua, mas ao Sol cujo irradiar deixara de te prover calor ameno e queimara teu negrume.
Culpado és tu, que pisaras no acúleo desprendido da bela rosa que farejaste,
e a ninguém cabe o dever de arrancá-lo de tua pata.
Caminhas agora, mas não denegres tua postura,
nem que a inflamação consuma os instrumentos de teu livre arbítrio.
A porta está aberta, e do sangue agridoce com que te recompensaram
nos poucos eventos em que foste um “bom menino” tu te absténs.
Ou
FICA!
Vais beber da poça lamaçenta.
Do fluido pútrido dos bueiros.
Banquetearás na carne azeda do rato.
Nos resquícios verminosos das lixeiras.
Mas terás em teu pequeno vazio pensante a certeza aliviada de não tornar a lamber desesperadamente as raspas do prato em que tão poucas vezes depositavam teu alimento. Fizeste, ao menos uma vez em tua curta vida de cão, a escolha. Viverás com ela, e com ela morrerás.