Ah, Cão!
Tu que forçaste tua cabeça a penetrar neste grilhão de prata,
tu que escolheste sufocar neste ornamento acolhedor.
Tu que comeras da carne crua que a mão te oferecia,
e te deleitaras com o sabor de ferrugem, e o engoliste agradecido!
Tu que suportaras o enforcador e te culpaste pela incompreensão do dialeto humano que te ordenava
SENTA!
Tua pelagem escura se eriçara com os mendigados afagos da mão que te alimentava.
Tu que negaras tua condição bestial em troca do conforto que encontraste no amontoado de tábuas
que te designaram como lar, e em que mal coube tua esguia integridade.
Teus olhos ansiosos, mescla de verde e castanho, que viram no mestre o deus mais belo,
que enxergaram Nossa Senhora e Vênus onde se escondia um carente Narciso.
Tu que colocaras tua fidelidade à prova quando mordeste a mão que te acariciou com o tapa.
Não uivaste à Lua, mas ao Sol cujo irradiar deixara de te prover calor ameno e queimara teu negrume.
Culpado és tu, que pisaras no acúleo desprendido da bela rosa que farejaste,
e a ninguém cabe o dever de arrancá-lo de tua pata.
Caminhas agora, mas não denegres tua postura,
nem que a inflamação consuma os instrumentos de teu livre arbítrio.
A porta está aberta, e do sangue agridoce com que te recompensaram
nos poucos eventos em que foste um “bom menino” tu te absténs.
Ou
FICA!
Vais beber da poça lamaçenta.
Do fluido pútrido dos bueiros.
Banquetearás na carne azeda do rato.
Nos resquícios verminosos das lixeiras.
Mas terás em teu pequeno vazio pensante a certeza aliviada de não tornar a lamber desesperadamente as raspas do prato em que tão poucas vezes depositavam teu alimento. Fizeste, ao menos uma vez em tua curta vida de cão, a escolha. Viverás com ela, e com ela morrerás.
Antes que a morte chegue
sábado, 27 de julho de 2013
terça-feira, 11 de junho de 2013
Sobre a paz
Meu caso de amor com a paz é antigo. Entretanto, nunca tiramos muito tempo um para o outro. Nos separamos diversas vezes, nos víamos por poucos momentos, e nos despedíamos com gritos histéricos. Tenho um apego absurdo à paz, e talvez por isso, ela tende a se afastar. Há poucos dias eu a reencontrei, perguntei como iam as coisas, desenrolamos uma conversa que durou horas, nos perdemos no tempo. Foi tudo tão natural, tão intenso, como se nunca tivéssemos nos separado. A paz está aqui comigo agora, olhando por sobre o meu ombro enquanto escrevo, me abraçando carinhosamente e me entregando tudo de si. Acho que ela me ama. Tenho medo de afastá-la. Mas já a conheço tempo o suficiente para saber que, caso nos separemos, um dia ela volta. Espero que isso não soe pretencioso. Ela volta. Sei que ela volta. Deem-me licença, preciso ir. A paz tá me chamando pra viver com ela em outro lugar.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Sobre o tempo
Eu queria devorar a física. Eu queria manipular os núcleos. Eu queria dominar a fusão. Eu queria construir um reator. Eu queria ter em meu controle energia suficiente para pulverizar galáxias. Só para aniquilar o maldito tempo que nos separa.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
(Até que não) sobre nada
O final da sátira de Chapolin ao filme My Fair Lady é a realidade de muita gente.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Sobre uma Amante Má
Perde-te então, besta lascívia que és tu, homem
Nas curvas capitosas desse meu corpo que desprezo
Encontra em meu interior, em pulsos constantes de prazer animal
O reduto em que depositarás tuas falsas promessas apaixonadas,
Agora naufragadas, esquecidas nesse mar revolto de luxúria
E eu, cínica, acolherei tuas juras tão convenientes
E compensarei-as, enquanto buscares em mim teus desejos
Para que, ao findar desta dança, que celebrarei com tragédia sanguinolenta
Não possas, com teus últimos lampejos de consciência, em pensamento,
Queixar-te de que fui uma Amante Má
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Sobre o Herói
O Herói alardeava os espólios de antigas jornadas
Ostentava orgulhoso seu pretérito deflagrado
Se apoiava arrogante em suas glórias apagadas
E chorava vitorioso em seu presente abandonado.
Ostentava orgulhoso seu pretérito deflagrado
Se apoiava arrogante em suas glórias apagadas
E chorava vitorioso em seu presente abandonado.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Sobre os sonhos perfurantes
Lembrei-me então daquela lança flamejante que permeava meus sonhos de anos atrás, arremessada por um agressor sem rosto. Ela vinha em minha direção e me perfurava o peito, entre as costelas, de encontro ao coração, e o atingia com força, um ferimento cauterizado, ardente, um corpo estranho e metálico que com seu enorme volume bloqueava a passagem do sangue, criando uma pressão agonizante, insuportável. A lança me encontrou novamente, mas o agressor está cansado, a ponta está cega e enferrujada, e quando ela me atinge, me joga no chão, e não perfura, mas estilhaça meus ossos com um impacto seco, e se incrusta meio torta no enorme músculo cardíaco, deixando uma grande fenda por onde escorre o sangue. O fogo arde de dentro pra fora, incessante, e minhas mãos se queimam ao tentar arrancar a arma do corpo, e minhas pernas se debatem inutilmente em um reflexo involuntário. Mas a dor já não é tão forte, pois pelo menos dessa vez, o sangue flui. O sangue flui.
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