segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sobre os sonhos perfurantes

Lembrei-me então daquela lança flamejante que permeava meus sonhos de anos atrás, arremessada por um agressor sem rosto. Ela vinha em minha direção e me perfurava o peito, entre as costelas, de encontro ao coração, e o atingia com força, um ferimento cauterizado, ardente, um corpo estranho e metálico que com seu enorme volume bloqueava a passagem do sangue, criando uma pressão agonizante, insuportável. A lança me encontrou novamente, mas o agressor está cansado, a ponta está cega e enferrujada, e quando ela me atinge, me joga no chão, e não perfura, mas estilhaça meus ossos com um impacto seco, e se incrusta meio torta no enorme músculo cardíaco, deixando uma grande fenda por onde escorre o sangue. O fogo arde de dentro pra fora, incessante, e minhas mãos se queimam ao tentar arrancar a arma do corpo, e minhas pernas se debatem inutilmente em um reflexo involuntário. Mas a dor já não é tão forte, pois pelo menos dessa vez, o sangue flui. O sangue flui.

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