segunda-feira, 9 de julho de 2012
Sobre uma Amante Má
Perde-te então, besta lascívia que és tu, homem
Nas curvas capitosas desse meu corpo que desprezo
Encontra em meu interior, em pulsos constantes de prazer animal
O reduto em que depositarás tuas falsas promessas apaixonadas,
Agora naufragadas, esquecidas nesse mar revolto de luxúria
E eu, cínica, acolherei tuas juras tão convenientes
E compensarei-as, enquanto buscares em mim teus desejos
Para que, ao findar desta dança, que celebrarei com tragédia sanguinolenta
Não possas, com teus últimos lampejos de consciência, em pensamento,
Queixar-te de que fui uma Amante Má
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Sobre o Herói
O Herói alardeava os espólios de antigas jornadas
Ostentava orgulhoso seu pretérito deflagrado
Se apoiava arrogante em suas glórias apagadas
E chorava vitorioso em seu presente abandonado.
Ostentava orgulhoso seu pretérito deflagrado
Se apoiava arrogante em suas glórias apagadas
E chorava vitorioso em seu presente abandonado.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Sobre os sonhos perfurantes
Lembrei-me então daquela lança flamejante que permeava meus sonhos de anos atrás, arremessada por um agressor sem rosto. Ela vinha em minha direção e me perfurava o peito, entre as costelas, de encontro ao coração, e o atingia com força, um ferimento cauterizado, ardente, um corpo estranho e metálico que com seu enorme volume bloqueava a passagem do sangue, criando uma pressão agonizante, insuportável. A lança me encontrou novamente, mas o agressor está cansado, a ponta está cega e enferrujada, e quando ela me atinge, me joga no chão, e não perfura, mas estilhaça meus ossos com um impacto seco, e se incrusta meio torta no enorme músculo cardíaco, deixando uma grande fenda por onde escorre o sangue. O fogo arde de dentro pra fora, incessante, e minhas mãos se queimam ao tentar arrancar a arma do corpo, e minhas pernas se debatem inutilmente em um reflexo involuntário. Mas a dor já não é tão forte, pois pelo menos dessa vez, o sangue flui. O sangue flui.
Sobre o Cão
Tenho que escrever sobre o cão. Antes que a morte chegue. O cão não quer ser esquecido, o cão quer ter sua história contada. O cão das histórias que me marcaram. O cão dos meus sonhos e pesadelos, o cão que também é um gato, um fantasma, um lobo da estepe, e tantas outras coisas. Aqui eu posso falar um pouco de um cão, parecido com ele, mas que não é o mesmo cão:
Me coloco à espreita
Me coloco à espreita
Me pinto nas sombras
Mesclo à matiz
de minha pelagem escura,
que me faz invisível.
Cerro meus olhos azuis
e observo pelo faro
o esgueirar do inimigo
que se denuncia pelo vento.
E eu entendo, e aprendo, e supero.
E ouço o pulsar da artéria barulhenta
Que corre a extensão do pescoço
E sinto em meu pelo o eriçamento
Que precede o ataque fugaz
E eu caço, e mordo, e mato.
Talvez esse cão seja eu mesmo.
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